blog

"Deixa Elas falar!"

  • Elisangela Machado

Emoções em queda livre

Atualizado: Set 30

A intensa crise econômica e sanitária, provocada pela pandemia por COVID-19, causa, em todos, impermanentes estados emocionais. Raro encontrar pessoas que estejam integralmente bem! As que o dizem vestem a máscara da positividade inabalável. Na variação entre um estado e outro, quem não perdeu o controle das emoções? Se ainda não perdeu, perderá. Bem-vinda ao estado das emoções alteradas.

O fato é: (uns mais, outros menos) todos estamos afetados pela pandemia. Diariamente, presencio relatos de pessoas ansiosas, com medo, deprimidas, com problemas financeiros, em situação de desemprego, outras suportando toda sorte de humilhação para se manterem empregadas. Pesa em nós os cuidados para prevenir a contaminação por COVID-19, a lida diária com o trabalho doméstico, os ajustes nas relações familiares e pessoais, a adaptação aos novos padrões de trabalho.

Há, sim, uma forte pressão sobre as pessoas para que se adaptem a essa nova realidade, com acúmulos de situações que vêm de bem antes, situações de estresses retesados que vêm à tona em momentos em que várias das nossas distrações não são praticadas devido ao afastamento social. Antes da pandemia, tínhamos liberdade de ir e vir e pouco tempo – o mundo era uma possibilidade sem barreiras. Agora o oposto: temos tempo e nossa liberdade encontra-se limitada às paredes de nossos lares e os muros nos cercam de nós mesmos.

Apesar desses inúmeros desafios impostos pelo cenário atual, somos estimuladas, por influencers nas redes sociais, ao perfeito estado de positividade, de não se abater com as dificuldades, ser sempre exemplo de superação, correr e alcançar o pódio como heroínas, por mais difícil que seja manter a performance em alta e atingir o sucesso. E isso sem a devida reflexão sobre o impermanente estado das emoções.

É como se fosse possível desenvolver um estado de sobreviver e antever crises e se proteger dos males. Em perspectiva cartesiana, é como se fôssemos capazes de compreender o que somos biologicamente através da simulação algorítmica. Os discursos se traduzem em "devemos ser racionais", "não se levar pelas emoções", "líderes devem ficar atentos para não basear decisões nos sentimentos". Irrefletidamente, as pessoas reproduzem o discurso dicotômico: a razão é sempre boa, enquanto as emoções são sempre ruins.

Tal compreensão, presente em vários posts nas redes sociais, artigos e lives são de simplicidade assustadora. Estabelece um padrão de positividade inabalável. É como se estivéssemos num pântano e pudéssemos sair puxados pelos cabelos com as próprias mãos.

O simplismo presente nesses discursos que apresentam a razão separada da emoção não abre espaço à ideia de um corpo modificável em certas circunstâncias e à apreciação do estado deste corpo e da mente durante as emoções. Sentimentos como alegria, tristeza, raiva, medo, aversão e surpresa estão ligados ao que nos forma como seres humanos e, portanto, não podem ser ignorados. Assim como o ciúme, orgulho, vaidade, vergonha e culpa, influenciados pelas crenças e valores de cada um, a depender da situação, levam a determinados comportamentos emocionais.

É inquietante ver prevalecer tais pensamentos na sociedade, cercada por tanta informação, mas sem refletir a essência dos indivíduos.

Inquieta na dúvida, que é o primeiro passo para se chegar ao conhecimento, recorri ao livro O Erro de Descartes, no qual António Damásio desafia o dualismo tradicional entre razão e emoção, argumentando que a ausência de emoção e sentimento destrói a racionalidade. No livro, Damásio aponta erro de Descartes por separar em suas interpelações filosóficas razão e emoção. No livro, Damásio contrapõe o dualismo cartesiano, no qual a alma (razão pura) é independente do corpo (emoções) - a simples alusão de separar razão e emoção, como propôs Descartes, não nos leva ao entendimento completo e amplo da tomada de decisões.

Extrapolar o simplismo da dualidade, conduzindo para um pensamento - ao contrário do que propôs Descartes no século XVII - de que o raciocínio deve ser feito de uma forma dissociada das emoções, quando na verdade são as emoções que permitem o equilíbrio das nossas decisões. As emoções são tomadas como referencial na seleção de opções. Segundo Damásio, a razão, por si só, não sabe quando começar ou parar de avaliar custos e benefícios para uma tomada de decisão. Logo, ele afirma, a partir de evidências científicas, que o déficit no reconhecimento dos estados emocionais é causa de dificuldades em tomar decisões racionais.

Nesse ponto, faço o seguinte questionamento: como as emoções são tomadas no processo de decisão racional?

Para responder essa questão, com toda liberdade metafórica, tomo por exemplo um salto de paraquedas. Saltar de paraquedas ou não? Submeter-se ou não a instantes de extrema incerteza?

Sabendo que seriam segundos apavorantes, tomada pela razão, embarquei na aventura.

Planejei nos mínimos detalhes, com três meses de antecedência, afinal, desejo sem planejamento é somente um sonho que se sonha só, como bem disse Raul Seixas.


Chegado o dia, me apresentei ao instrutor destemida, recebi todas as instruções, verifiquei todos os critérios de segurança e aguardei a hora do salto convicta do propósito. A cada equipe que voltava da proeza, mais estimulada ficava para embarcar naquela aventura.

Na hora “H”, na porta do avião, senti pavor!

Olhei a distância entre mim e o solo e, contrariando as recomendações do instrutor, fechei os olhos e pensei: minha vida acaba aqui... O medo tomou conta de todo o meu corpo. Em uma fração de segundos, recobrei a razão, lembrei de quão breve seria aquele instante e tomei a seguinte decisão: se eu tivesse que morrer dali a alguns minutos, seria aproveitando da melhor forma possível meus últimos suspiros de vida. Abri os olhos e lá estava eu, em queda livre, adentrando uma nuvem.

Rompi a barreira do medo. Na primeira parte da aventura, caí em queda livre por 40 segundos a 200 km/h, me entreguei à gravidade, senti meu corpo viajando sem barreiras dentro de uma nuvem, respondi aos comandos do instrutor e aproveitei o caminho com um sorriso no rosto. Estava apreensiva, mas também em êxtase! Naquele momento, constatei: o medo pode paralisar nossas ações e impedir a abertura para o desconhecido.

Na segunda parte da aventura, surpresa ante todo o céu de possibilidades apresentadas aos meus olhos, foi preciso confiar no instrutor quando ele abriu o paraquedas, soltou e prendeu os equipamentos para ajustá-los ao meu corpo. Aprendi a manobrar o paraquedas ao passo que contemplava a paisagem e percebia em mim as sensações proporcionadas pelo silêncio e o toque suave do ar. Senti alegre satisfação naquele momento, por dar vazão a todas as emoções que iam em mim. Tomar a decisão de saltar e permitir ir se arrumando pelo caminho, com coragem, competência, amor e alto astral, implicou permitir vivenciar uma nova experiência e também aprender como as emoções iam em meu corpo, em condições desconhecidas e extremas.

Na parte final do salto, já em terra firme, me perguntei: se eu desse vazão apenas a minha razão, teria tomado a decisão de saltar? A resposta é não!


Dificilmente, tomamos a decisão de apostar na incerteza, principalmente quando envolve risco à vida. Num lapso de pensamento cartesiano, ansiamos por certezas, desconfiamos da constante impermanência e nos agarramos à primeira salvação racionalizada. O fato é que não estamos preparados para vivenciar momentos de extrema apreensão.


Nas situações extremas, em que todos os sentidos afloram, somos incapazes de nos comportar apenas racionalmente, sem atentar para as emoções, e decidir. Pressionados e em meio a um turbilhão de emoções, nossa capacidade de tomar decisões coerentes fica consideravelmente comprometida. Isso porque as emoções funcionam como um guia, apontando para qual direção vão nossas escolhas. Em queda livre, não dar lugar às emoções pode até levar ao conhecimento racional e técnico, mas em nada ajuda vivenciar emoções e armazená-las na memória.


Durante o salto, a liberdade de tomar decisões ao longo do trajeto está no background pessoal - viver e externar as emoções que vão em nós é questão de escolha, de dosar o desejo que nos alimenta e move. Estar em queda livre significa permitir, entregar, confiar, realizar e ver toda imensidão do mundo com toda sorte de emoções que ele nos proporciona. E, ao final, guardar em si a vivência de toda sorte de emoções.


A própria história da evolução natural revela processos em que o imperativo é o estabelecimento de repertórios adaptativos moldados pelas emoções, e a escolha de alternativas em determinadas situações reflete nossas próprias percepções apreendidas em certas condições e circunstâncias.

Passar incólume pela queda livre não era a intenção! O propósito foi formar um ativo a partir da experiência emocional, como valor que, no futuro, pudesse ser acionado em processos de tomada de decisão, em situações de extrema pressão, e tivesse de escolher entre alternativas dicotômicas, conflitantes, negativas ou positivas.


Se fôssemos capazes de nos livrar completamente de emoções, seria muito difícil julgar opções, e a tomada de decisão seria transformada em um processo absurdamente neutro – na expressão popular da palavra “em cima do muro”.


No livro Inteligencia Emocional, Daniel Goleman chama atenção para o fato de que, à medida que treinamos o cérebro com novos comportamentos emocionais, ele constrói os caminhos necessários para transformá-los em hábitos - e as emoções são parte indispensável da nossa vida racional, sendo elas que nos ajudam a tomar decisões. São as emoções que nos fazem únicos, é o nosso comportamento emocional que nos diferencia uns dos outros.


Voltando ao contexto da pandemia por Covid-19 e à pergunta que fiz no começo do texto, as emoções como tristeza, raiva, angústia, insatisfação, medo, menos alegria e euforia tomam conta de nossos dias. E tudo bem! Somente pessoas com déficits emocionais seriam incapazes de manifestá-las e, por vezes, não surtar.


Contudo, influenciados pela positividade inabalável, mais que em outros tempos, todos nós queremos ter êxito no controle das emoções em todas as áreas de nossas vidas, especialmente no ambiente profissional. Porém, essa habilidade nos escapa, um conflito aqui ou outro ali acontece, e lá estamos nós vivenciando uma situação de queda livre. Afinal, somos passíveis de acertos, equívocos, virtudes e sombras.

As adversidades impostas pelo momento atual exigem, mais que em outros tempos, habilidades de reconhecer em nós, acolher nossos estados emocionais, inclusive as reações exacerbadas. Acontece!


Aceitemos essa explosão de emoções, lançadas em queda livre, conscientes de que, em algum momento, seremos chamadas à racionalidade, a observar as situações em outras perspectivas, a abrir o paraquedas da empatia, entender como funcionamos, como as outras pessoas pensam, descobrir como é possível olhar uma situação sob diferentes visões. E, dispostas ao diálogo, construir soluções e caminhos alternativos.


#softskill #inteligênciaemocional #gestãoemocional #empatia #liderança #vivência

45 visualizações
Workshop

elas no

palco

Cadastre seu conteúdo e compartilhe conhecimento, com toda a nossa comunidade, em diversos formatos e canais.

Protagonismo feminino? Aqui tem!

Mulher com tablet

elas

convidam

Confira o que está rolando e junte-se às atividades da rede para se capacitar e expandir sua rede de contatos.

Aproveite a comunidade!

Elas Projetam Desenvolvimento Profissional e Gerencial Ltda.

CNPJ 29.316.612/0001-70

Rua 17, 49 Goiânia-GO 74140-050
+55 61 98608 5940

  • YouTube - Black Circle
  • LinkedIn - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Instagram - Black Circle